
China Actual
Nota: Este texto é um resumo recriado por Notebook LLM sobre a palestra “China Actual”, que aconteceu no Hotel Wyndham em 04 de dezembro de 2025, ministrada pela professora Maria Jose Mora Friedl.
A ascensão da China contemporânea e o seu reposicionamento no cenário global são intrinsecamente ligados à figura do seu líder, Xi Jinping, frequentemente apelidado de “O Imperador Vermelho”. Para entender a ambição chinesa e o seu impacto geopolítico, é fundamental analisar a trajetória de Xi Jinping, o ambicioso projeto da Nova Rota da Seda, o processo de desocidentalização do poder global, o rigoroso controle estatal sobre a população, as estratégias de investimento externo e o foco em projetos de educação e meritocracia.
A História e Ascensão de Xi Jinping: Do Privilégio à Reeducação
Xi Jinping é hoje o presidente ou secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC) e detém o poder de permanecer no cargo pelo tempo que desejar, uma posição justificada, segundo a fonte, pelo sucesso das suas políticas. Ele é descrito como um homem culto, leitor voraz e até aficionado por Hollywood, com O Padrinho sendo um de seus filmes favoritos. Sua história, contudo, é marcada por reviravoltas políticas que moldaram sua lealdade inabalável ao PCC.
Xi nasceu na elite, um dos “príncipes” do partido, pois seu pai, Xi Zhongxun, era um herói da revolução de 1949 e um companheiro próximo de Mao Zedong. Essa vida de privilégio foi abruptamente interrompida no início dos anos 60 com o advento da Revolução Cultural. Seu pai caiu em desgraça com Mao e foi exilado para trabalhar em uma fábrica, enquanto sua mãe foi enviada para trabalhos forçados em uma fazenda.
Aos 15 anos, em 1969, Xi Jinping foi enviado com outros adolescentes para Liangjiahe, uma aldeia remota, para o que foi chamado de “reeducação” em campos de trabalho forçado, vivendo ali por sete anos. Contrariamente à lógica ocidental que esperaria ódio ao comunismo, o sistema de reeducação funcionou perfeitamente. Xi relata que foi ali que sua vida começou, aprendendo sobre a vida difícil e de subsistência no campo, o que o convenceu da nobreza do discurso comunista e da luta pelos direitos dos camponeses e dos mais pobres.
Determinado a recuperar a honra de seu pai, ele tentou ingressar no PCC, sendo rejeitado oito vezes até ser finalmente aceito na nona tentativa. A carreira política na China exige lealdade vitalícia e intocável ao partido. Xi obteve uma formação acadêmica impressionante, incluindo uma graduação em Engenharia Química e um doutorado em Marxismo. Um momento crucial de sua formação ocorreu em 1985, quando foi enviado aos Estados Unidos (Califórnia) com a missão de entender o “cableado mental” (conexão mental) dos ocidentais e redigir relatórios detalhados sobre o funcionamento e otimização das fazendas agrícolas americanas. Essa missão demonstra a planificação chinesa de longo prazo para implementar o melhor do Ocidente em seu próprio sistema.
Sua ascensão subsequente foi meteórica: Vice-Prefeito de Xiamen (com forte peso estratégico por estar em frente a Taiwan), organizador dos Jogos Olímpicos de 2008 (uma plataforma para demonstrar sua capacidade de gestão ao partido), até atingir o cargo máximo de Secretário-Geral do PCC em 2012. Em sua gestão, ele valoriza a eficiência, os resultados e o trabalho duro, promovendo uma ideologia de meritocracia. Ele também iniciou um rigoroso processo de depuração contra a corrupção dentro do partido, um problema sério gerado pelo aumento vertiginoso de riqueza.
Desocidentalização e Controle Populacional
O mundo está em um processo de “desocidentalização”, onde as decisões globais não se limitam mais a Washington, Paris ou Londres, mas sim a centros como Beijing, Moscou e Teerã. A China de Xi Jinping representa o ápice dessa mudança, ancorada em uma identidade cultural contínua de 6.000 anos. O “cableado mental” asiático é fundamentalmente diferente do ocidental, sendo que a China jamais elegeu seus líderes e não sente falta da democracia.
O modelo chinês opera sob a premissa de que a população cede certas liberdades em troca de estabilidade e segurança social, econômica e médica, que as democracias ocidentais têm falhado em garantir. Enquanto o Ocidente luta por direitos de voto, o cidadão chinês prioriza o crescimento econômico e a melhoria das condições de vida. Esse sistema permitiu que a China tirasse 600 milhões de pessoas da pobreza, um feito que nenhuma outra nação pode reivindicar.
Contudo, essa estabilidade é mantida por um controle rigoroso sobre a população. A vigilância é onipresente, com câmeras 24 horas por dia. O governo usa o orgulho nacional como ferramenta de lealdade, financiando viagens para os chineses mais pobres visitarem locais culturais importantes. Internamente, o sistema hukou (passaporte local) gera tensão de classes entre habitantes rurais e urbanos.
O controle mais severo é exercido sobre minorias étnicas, como no Tibete, onde o governo restringe o turismo e controla rigorosamente quem entra e sai. A situação dos uigures, a população muçulmana de Xinjiang, é alarmante: o governo exerce uma pressão constante para que abandonem a prática islâmica. Ações como deixar a barba crescer ou rezar na mesquita resultam em perda de pontos, o que pode comprometer o acesso dos filhos à educação ou a serviços hospitalares. A vigilância é tão intensa que mesmo conversas privadas são monitoradas, e expressar opiniões dissidentes pode levar a campos de reeducação.
Projetos de Educação e Investimentos Estrangeiros Estratégicos
A China tem uma visão clara sobre o futuro, e a educação é um pilar central. O governo chinês acredita que o futuro está nas mãos dos professores. Uma população melhor educada adoece menos, rouba menos e compreende mais. Além disso, o PCC tem uma estratégia para que os chineses leiam mais e compreendam o que leem. O sistema valoriza a meritocracia, onde “os últimos serão sempre os últimos” se não se esforçarem, reforçando a cultura de sacrifício e trabalho duro.
Para manter o controle ideológico, Xi Jinping implementou recentemente normativas proibindo a contratação de professores estrangeiros para educar a elite. A justificativa é evitar que “cabeças brilhantes pensem coisas revolucionárias”. Estilos de vida e vestuário ocidentais, como o K-pop, também foram vetados, forçando os jovens a “voltarem a ser chineses” ou terem suas matrículas canceladas.
A ambição de Xi Jinping de restaurar a China ao seu status de principal potência mundial do século XV é catalisada por investimentos estrangeiros massivos e estratégicos.
A Nova Rota da Seda e o Impacto Geopolítico Global
O grande projeto de Xi Jinping para realizar o “Sonho Chinês” é a Nova Rota da Seda (One Belt, One Road). Esta iniciativa não é apenas uma infraestrutura comercial; é uma estratégia geopolítica para garantir que o comércio mundial dependa da China, replicando o poder que o controle das rotas comerciais deu à China antiga.
O projeto visa conectar o mundo utilizando todos os meios de transporte do século XXI: estradas, portos, aeroportos, oleodutos e gasodutos. Se concretizada, a Nova Rota da Seda geriria 55% do produto bruto mundial, envolveria 70% da população do planeta e incluiria 75% das reservas energéticas. O plano não é de curto prazo, mas sim uma meta com data marcada: a inauguração do seu funcionamento perfeito está prevista para 2049/2050, coincidindo com o centenário do governo comunista.
Os investimentos externos chineses, que cresceram exponencialmente nos últimos 10 a 15 anos, são o motor desta Rota. Estes investimentos são usados para construir infraestruturas vitais e garantir aliados. Por exemplo, a China construiu de presente o edifício do Fórum Africano. Outra tática estratégica envolve a segurança alimentar: a China vai a partes esquecidas da África, paga para que cultivem produtos específicos e compra essa produção, tecendo um futuro onde a África provavelmente estará aliada a Beijing em vez do Ocidente, devido à história de colonização.
Um exemplo notório de investimento estratégico é o Porto de Hambantota no Sri Lanka. Após construir o porto com bilhões de dólares, o governo do Sri Lanka faliu e não conseguiu pagar. A China então assumiu o uso e usufruto do porto por 99 anos, garantindo um ponto estratégico na Rota da Seda Marítima.
O crescimento da China, impulsionado por esta planificação, já teve um impacto geopolítico profundo. Entre 2000 e 2019, a China tirou dos Estados Unidos cerca de 80% do comércio dominante, despertando uma reação intensa de Washington. O principal objetivo geopolítico dos EUA é isolar a China, que hoje lidera a Organização de Xangai, reunindo três quartos da população mundial.
O projeto da Nova Rota da Seda e a ascensão de Xi Jinping demonstram o sucesso de um sistema que, embora totalitário em termos políticos, é astuto e pragmático em termos econômicos, garantindo a sobrevivência do regime através da adaptação e inovação. Como uma vasta e antiga máquina de guerra, o planejamento chinês é meticuloso e de longo prazo, buscando não apenas o crescimento econômico, mas a recuperação definitiva da hegemonia global.
A estratégia chinesa sob Xi Jinping é como um jogo de Go, onde cada movimento de investimento, controle populacional e política educacional não é um evento isolado, mas uma peça cuidadosamente colocada para cercar e controlar o tabuleiro geopolítico global em preparação para a meta final de 2049, garantindo que o centro de gravidade do poder mundial se desloque permanentemente para o Oriente.
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